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Noites brancas

Tem algumas coisas que nos identificam assim de uma forma tão forte, quase como acertar aquelas argolas em garrafas nas barracas de festa de igreja. É impossível ficar indiferente à felicidade do protagonista de noites brancas. E, um pouco depois, pela sua tristeza e solidão.

Eu sei, Nastenka, eu sei! — exclamei, sem poder conter a minha emoção. — E agora sei melhor do que nunca que perdi gratuitamente os melhores anos da minha vida! Agora sei-o, e, cruelmente, tenho disso uma consciência mais aguda desde que Deus a enviou junto de mim, a si, meu bom anjo, para mó dizer e provar. Agora, que estou sentado junto de si e que falo consigo, tenho medo de pensar no futuro, pois no futuro será ainda a solidão, ainda esta vida inútil e reservada.., e no que poderei depois sonhar quando, acordado, ao seu lado, fui de tal modo feliz? Seja bendita, minha querida, por não me ter repelido imediatamente, por me ter permitido dizer hoje que pelo menos, pude viver duas noites em toda a minha vida!

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Que recordações! Lembro-me, por exemplo, de que neste local, há justamente um ano, precisamente a esta hora, neste mesmo passeio, vagueei tão solitário e tão sombrio como hoje! E repare que nessa altura também os pensamentos eram tristes; ainda que não fosse mais feliz, sentia, apesar de tudo, que a vida era mais fácil e tranqüila, não existindo nela esta idéia negra que agora a mim se apegou; nada desses problemas de consciência, sombrios e severos remorsos, que nem de dia nem de noite me deixam descansado. E uma pessoa interroga-se: mas então onde estão os teus sonhos? E sacode a cabeça, dizendo: como os anos passam depressa!... E novamente nos interrogamos: mas o que fizeste tu dos teus anos? Onde foste enterrar o teu tempo mais precioso? Viveste verdadeiramente? Sim ou não? Repara, dize­mos para nós mesmos, repara como o mundo arrefeceu. Passa­rão ainda mais anos e, após eles, virá a triste solidão, virá com a sua bengala a vacilante velhice e, após eles, o tédio e o desespero. O teu mundo fantástico empalidecerá; os teus so­nhos morrerão, fenecerão, cairão como as folhas mortas caem das árvores... Oh, Nastenka, como será triste ficar só, completamente só, e não ter absolutamente nada a lamentar, nada de nada..., pois tudo o que se perdeu, tudo isso junto, não significa nada, é um zero estúpido e perfeito, tudo não terá passado de um sonho!

Apesar de um pouco diferente da edição que tenho, da L&PM, a internet possui uma versão bastante bacana (e integral) do livro, que você pode ver no ebooksbrasil.

Muito recomendado.

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escrito por kirp. View Comments. (11/08/2011)



categorias: bizarro, blog, boiolosfera, cinema, dia-a-dia, filosofando, livros, música, nerd, reclamação, redação, séries, tv.

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